URBANIZAÇÃO SUSTENTAVEIS: Desafios e estratégias para um futuro resiliente frente às mudanças climáticas

gray concrete building covered trees

This work aims to address the urba­ni­za­ti­on pro­cess and its rela­ti­onship with cli­ma­te chan­ge and to pro­po­se alter­na­ti­ves for smart urban deve­lop­ment con­si­de­ring sus­tai­na­ble stra­te­gi­es to face cli­ma­te change

RESUMO

A neces­si­da­de de urba­ni­za­ção sur­giu a par­tir do adven­to da revo­lu­ção indus­tri­al. A neces­si­da­de de gran­de quan­ti­da­de de mão-de-obra para dar vazão à pro­du­ção em mas­sa ori­gi­nou a rápi­da urba­ni­za­ção, como um cur­so natu­ral e trans­for­mou a natu­re­za do esti­lo de vida huma­no de for­ma deci­si­va e per­ma­nen­te. Efei­tos secun­dá­ri­os não inten­ci­o­nais sur­gi­ram ao lon­go des­se pro­ces­so de sig­ni­fi­ca­ti­vo cres­ci­men­to econô­mi­co e pros­pe­ri­da­de, sen­do as mudan­ças cli­má­ti­cas, devi­das à emis­são de car­bo­no, um dos pro­ble­mas que mere­cem mai­or des­ta­que. As mudan­ças cli­má­ti­cas tra­zem vári­os desas­tres, como tufões, inun­da­ções e incên­di­os flo­res­tais, entre outros. A tran­si­ção para esti­los de vida urba­nos, sem que sejam leva­das em con­si­de­ra­ção as prá­ti­cas sus­ten­tá­veis, tem se con­fi­gu­ra­do em uma das prin­ci­pais ques­tões da atu­a­li­da­de. Este tra­ba­lho tem o obje­ti­vo de abor­dar o pro­ces­so de urba­ni­za­ção e suas rela­ções com as mudan­ças cli­má­ti­cas e pro­por alter­na­ti­vas de desen­vol­vi­men­to urba­no inte­li­gen­te con­si­de­ran­do estra­té­gi­as sus­ten­tá­veis para enfren­tar as mudan­ças climáticas.

ABSTRACT

The need for urba­ni­za­ti­on aro­se from the advent of the indus­tri­al revo­lu­ti­on. The need for subs­tan­ti­al amounts of labor to give way to mass pro­duc­ti­on gave rise to rapid urba­ni­za­ti­on as a natu­ral cour­se and trans­for­med the natu­re of the human lifesty­le deci­si­vely and per­ma­nen­tly. Unin­ten­ded side effects have ari­sen throughout this pro­cess of sig­ni­fi­cant eco­no­mic growth and pros­pe­rity, with cli­ma­te chan­ge, due to car­bon emis­si­ons, being one of the pro­blems that deser­ve gre­a­ter atten­ti­on. Cli­ma­te chan­ge brings vari­ous disas­ters, such as typho­ons, flo­ods, and wild­fi­res, among others. The tran­si­ti­on to urban lifesty­les, without taking into account sus­tai­na­ble prac­ti­ces, has beco­me one of the key issu­es of our time. This work aims to address the urba­ni­za­ti­on pro­cess and its rela­ti­onship with cli­ma­te chan­ge and to pro­po­se alter­na­ti­ves for smart urban deve­lop­ment con­si­de­ring sus­tai­na­ble stra­te­gi­es to face cli­ma­te change.

1 INTRODUÇÃO

Com o rápi­do desen­vol­vi­men­to da indus­tri­a­li­za­ção e a evo­lu­ção das soci­e­da­des huma­nas, hoje mais da meta­de da popu­la­ção mun­di­al está habi­tan­do áre­as urba­nas, pela pri­mei­ra vez na his­tó­ria da huma­ni­da­de. Essa par­ce­la urba­na aumen­ta­rá para qua­se 60% até 2030 e terá gran­des chan­ces de che­gar a 70% até 2050 (ONU, 2007).

A urba­ni­za­ção, o pro­ces­so que des­cre­ve o cres­ci­men­to das cida­des e a migra­ção popu­la­ci­o­nal para as áre­as urba­nas, empur­ra a neces­si­da­de de ener­gia para que as cida­des pos­sam ser cons­truí­das e vidas pos­sam ser ali­men­ta­das. Com a des­co­ber­ta de óle­os bru­tos e com­bus­tí­veis fós­seis, bem como a inven­ção de moto­res, data­da des­de a pri­mei­ra Revo­lu­ção Indus­tri­al, ini­ci­a­da na segun­da meta­de do sécu­lo XVIII, a polui­ção entra no pal­co da his­tó­ria humana.

No entan­to, não é até o final do sécu­lo XX que con­cei­tos como pro­te­ção ambi­en­tal, efei­to ilha tro­pi­cal, gases de efei­to estu­fa, ener­gi­as lim­pas, sus­ten­ta­bi­li­da­de e pre­ven­ção de desas­tres cha­ma­ram a aten­ção. A rápi­da urba­ni­za­ção e os esti­los de vida urba­nos moder­nos cri­a­ram con­ve­ni­ên­cia para a vida huma­na, mas tam­bém tra­zem mudan­ças cli­má­ti­cas gra­ves e até desas­tro­sas (ZHAO, 2010).

O uso tra­di­ci­o­nal de óle­os bru­tos e com­bus­tí­veis fós­seis desem­pe­nha um papel impor­tan­te no apoio ao desen­vol­vi­men­to das indús­tri­as e à urba­ni­za­ção. A quei­ma de com­bus­tí­veis fós­seis libe­ra gran­de quan­ti­da­de de dió­xi­do de car­bo­no na atmos­fe­ra, o que retém o calor no meio ambi­en­te e, even­tu­al­men­te, leva a aquecimento.

Este é con­si­de­ra­do um dos pro­ble­mas mais gra­ves das mudan­ças cli­má­ti­cas, uma vez que o aumen­to da tem­pe­ra­tu­ra glo­bal resul­ta em inú­me­ros desas­tres. O der­re­ti­men­to de ice­bergs pro­vo­ca o aumen­to do nível do mar e aca­ba por tra­zer inun­da­ções e tufões tro­pi­cais; a alta tem­pe­ra­tu­ra em flo­res­tas rela­ti­va­men­te secas leva a incên­di­os florestais.

As zonas urba­nas são a prin­ci­pal fon­te de emis­sões de gases de efei­to estu­fa e devem tam­bém assu­mir o papel de líde­res mun­di­ais na reso­lu­ção dos pro­ble­mas das alte­ra­ções cli­má­ti­cas atra­vés do pro­ces­so de miti­ga­ção da emis­são des­ses gases (ARAOS et al., 2016).

A neces­si­da­de das cida­des em se opor às mudan­ças cli­má­ti­cas tem se refle­ti­do em reu­niões e acor­dos inter­na­ci­o­nais, como o Pro­to­co­lo de Kyo­to, que visa redu­zir as emis­sões de gases de efei­to estu­fa, o Acor­do de Paris, que con­cor­da em man­ter o aque­ci­men­to glo­bal menos de 2°C aci­ma do nível pré-indus­tri­al, e tam­bém a Con­ven­ção das Nações Uni­das sobre Mudan­ça do Clima.

Dian­te de desas­tres natu­rais como as con­sequên­ci­as das ati­vi­da­des huma­nas, é ago­ra essen­ci­al e neces­sá­rio explo­rar méto­dos e polí­ti­cas de cons­tru­ção urba­na sus­ten­tá­vel de cida­des para que se adap­tem e retar­dem, se pos­sí­vel, as mudan­ças cli­má­ti­cas, e pro­po­nham estra­té­gi­as de pre­ven­ção no tra­ta­men­to de desas­tres natu­rais para desen­vol­ver a urba­ni­za­ção globalmente.

O obje­ti­vo des­te tra­ba­lho é abor­dar o tema da impor­tân­cia da neces­si­da­de do pla­ne­ja­men­to e da cons­tru­ção de cida­des sus­ten­tá­veis, bem como pro­por alter­na­ti­vas de solu­ção para estra­té­gi­as de desen­vol­vi­men­to urba­no com prá­ti­cas sustentáveis.

2 DESENVOLVIMENTO

A ideia de sus­ten­ta­bi­li­da­de tem sido arras­ta­da para a van­guar­da da for­mu­la­ção de polí­ti­cas à medi­da que toda a soci­e­da­de huma­na des­per­ta para come­çar a enfren­tar as con­sequên­ci­as que as mudan­ças cli­má­ti­cas trou­xe­ram e esta­rão con­ti­nu­a­men­te impon­do às nos­sas cida­des e esti­los de vida.

As con­sequên­ci­as que estão ame­a­çan­do os sis­te­mas cons­truí­dos pelos seres huma­nos e os sis­te­mas natu­rais exis­ten­tes nas cida­des urba­nas são prin­ci­pal­men­te devi­do às mudan­ças cli­má­ti­cas e ao uso de ener­gia base­a­da em com­bus­tí­veis fós­seis (LIAO et al., 2013).

O que tor­na a situ­a­ção ain­da mais gra­ve é que as ame­a­ças não são ape­nas das mudan­ças cli­má­ti­cas e dos usos de ener­gia em si, mas tam­bém da omis­são admi­nis­tra­ti­va, da rápi­da expan­são da urba­ni­za­ção e das cri­ses soci­o­e­conô­mi­cas são vári­as fon­tes óbvi­as de incer­te­zas (YIGITCANLAR, 2010).

Assim, a neces­si­da­de de desen­vol­ver uma pers­pec­ti­va de pla­ne­ja­men­to e desen­vol­vi­men­to mais efi­caz e resi­li­en­te é cada vez mais urgen­te, para que seja pos­sí­vel lidar com as enor­mes trans­for­ma­ções que ambi­en­tes, cida­des e soci­e­da­des vêm pas­san­do nas últi­mas déca­das (PICKETT, CADENASSO, GROVE, 2004).

Para enfren­tar esses desa­fi­os e resol­ver o pro­ble­ma das mudan­ças cli­má­ti­cas e da fal­ta de sus­ten­ta­bi­li­da­de, alguns espe­ci­a­lis­tas em todo o mun­do con­si­de­ram o desen­vol­vi­men­to urba­no sus­ten­tá­vel como uma opor­tu­ni­da­de viá­vel para for­mar novos meca­nis­mos para cri­ar um futu­ro urba­no dese­já­vel e ide­al, com a sus­ten­ta­bi­li­da­de no cen­tro (RUNHAAR, DRIESSEN, SOER, 2009).

O desen­vol­vi­men­to urba­no sus­ten­tá­vel é defi­ni­do como o pro­ces­so de melho­ria da qua­li­da­de de vida urba­na, que con­sis­te em aspec­tos como ambi­en­tais, eco­ló­gi­cos, soci­ais, polí­ti­cos, cul­tu­rais e econô­mi­cos, sem agra­var a car­ga impos­ta às gera­ções futu­ras (FLINT, RACO, 2012).

Sus­ten­ta­bi­li­da­de, em essên­cia, é pre­su­mir que os recur­sos são fini­tos para que as gera­ções futu­ras vivam uma vida abun­dan­te. Assim, des­ta for­ma, cida­des urba­nas sus­ten­tá­veis estão sen­do desen­vol­vi­das e for­ma­das com sucesso.

A sus­ten­ta­bi­li­da­de urba­na está se tor­nan­do um tópi­co de deba­te cada vez mais visí­vel no sécu­lo XXI, espe­ci­al­men­te na for­mu­la­ção de polí­ti­cas urba­nas, design e pla­ne­ja­men­to urba­nos e toma­da de deci­sões sobre desen­vol­vi­men­to sus­ten­tá­vel glo­bal. Nos anos mais recen­tes, a sus­ten­ta­bi­li­da­de mos­tra uma impor­tân­cia crí­ti­ca atra­vés dos impac­tos adver­sos das ati­vi­da­des da soci­e­da­de, por exem­plo, as mudan­ças climáticas.

Em uma soci­e­da­de na qual está aumen­tan­do a cons­ci­en­ti­za­ção sobre as con­sequên­ci­as nega­ti­vas de deci­sões impen­sa­das de desen­vol­vi­men­to urba­no carac­te­ri­za­das pela negli­gên­cia da sus­ten­ta­bi­li­da­de, esfor­ços e con­si­de­ra­ções cres­cen­tes devem ser colo­ca­dos na cons­tru­ção de futu­ras novas cida­des urba­nas que pos­sam apoi­ar os obje­ti­vos de desen­vol­vi­men­to de lon­go pra­zo das soci­e­da­des huma­nas. É comum e incor­re­to con­si­de­rar a tec­no­lo­gia como a cau­sa de todos os pro­ble­mas. No entan­to, as res­pos­tas para os pro­ble­mas de desen­vol­vi­men­to urba­no sus­ten­tá­vel não devem ser bus­ca­das ape­nas com base na dis­po­ni­bi­li­da­de tecnológica.

Pen­sa­men­to crí­ti­co e intros­pec­ção nos dois lados das tec­no­lo­gi­as devem ser ati­vos, pois está mais do que cla­ro que o desen­vol­vi­men­to tec­no­ló­gi­co e a indus­tri­a­li­za­ção leva­ram às mudan­ças cli­má­ti­cas no sécu­lo XXI. Embo­ra no pla­ne­ja­men­to e design urba­nos a tec­no­lo­gia seja fre­quen­te­men­te apli­ca­da e não se deva negar que foram per­ce­bi­dos seus poten­ci­ais em aumen­tar a efi­ci­ên­cia e for­ne­cer solu­ções alter­na­ti­vas, repen­sar o pla­ne­ja­men­to urba­no sus­ten­tá­vel é sem­pre essen­ci­al e deve estar sem­pre à fren­te da uti­li­za­ção da tecnologia.

A neces­si­da­de de pro­te­ger o ambi­en­te da des­trui­ção eco­ló­gi­ca como medi­da para alcan­çar a sus­ten­ta­bi­li­da­de é hoje um con­sen­so rela­ti­va­men­te comum. As cida­des urba­nas sus­ten­tá­veis seri­am uma das melho­res solu­ções, uma vez que as áre­as urba­nas estão a ocu­par cada vez mais ter­ri­tó­rio e a exer­cer for­tes impac­tos eco­ló­gi­cos e, entre­tan­to, com­por­tam-se tam­bém como a pro­te­ção da eco­no­mia, o que pode­ria ser impe­di­do devi­do à imple­men­ta­ção de novas polí­ti­cas para faci­li­tar a tran­si­ção para um modo de vida sus­ten­tá­vel. Infe­liz­men­te, a cons­tru­ção de cida­des sus­ten­tá­veis em gran­des áre­as urba­nas ain­da não é realizada.

Os recen­tes impac­tos das mudan­ças cli­má­ti­cas e even­tos catas­tró­fi­cos rela­ci­o­na­dos em todo o mun­do levan­ta­ram a pre­o­cu­pa­ção de saber se o gover­no e as soci­e­da­des têm a capa­ci­da­de de se adap­tar às mudan­ças cli­má­ti­cas ou se a capa­ci­da­de é limi­ta­da. Cap­tou-se uma cla­ra mudan­ça de dis­cus­sões cien­tí­fi­cas, des­de a neces­si­da­de de adap­ta­ção até méto­dos de adap­ta­ção, e ain­da quais obs­tá­cu­los estão no cami­nho dos esfor­ços adap­ta­ti­vos que estão sen­do ten­ta­dos e fei­tos (ADGER, BARNETT, 2009).

Dis­cus­sões têm sido fei­tas em tor­no de gran­des bar­rei­ras a serem resol­vi­das para fazer uma adap­ta­ção bem-suce­di­da e, no entan­to, não há uma res­pos­ta uni­ver­sal e con­gru­en­te. Alguns suge­rem que as bar­rei­ras são os obs­tá­cu­los que pre­ci­sam ser supe­ra­dos por meio de esfor­ço con­jun­to, ges­tão fle­xí­vel, pen­sa­men­to crí­ti­co e alo­ca­ção sábia de recur­sos (RIJKE et al., 2012).

Embo­ra seja indu­bi­tá­vel que as bar­rei­ras sem­pre sur­gi­rão ao lon­go do cami­nho do esfor­ço, e é sufi­ci­en­te con­cor­dar que a com­pre­en­são com­ple­ta da natu­re­za de tais bar­rei­ras à adap­ta­ção seria difí­cil devi­do ao fato de que os arti­gos exis­ten­tes sobre tal tópi­co são alta­men­te espe­cí­fi­cos da situ­a­ção. Isso não indi­ca que não valha a pena com­pre­en­der a natu­re­za das bar­rei­ras à adaptação.

Pelo con­trá­rio, é tão essen­ci­al como a pró­pria ela­bo­ra­ção de polí­ti­cas de pla­ne­ja­men­to urba­no sus­ten­tá­vel, uma vez que podem sur­gir bar­rei­ras novas e impre­vi­sí­veis con­si­de­rá­veis ao lon­go do desen­vol­vi­men­to de polí­ti­cas e regu­la­men­tos de adap­ta­ção às alte­ra­ções cli­má­ti­cas. Pre­ver tais bar­rei­ras e pro­ble­mas e resol­vê-los ante­ci­pa­da­men­te seria um esfor­ço vali­o­so em ter­mos de evi­tar con­sequên­ci­as não inten­ci­o­nais da imple­men­ta­ção de novas políticas.

O desen­vol­vi­men­to urba­no sus­ten­tá­vel pode­ria ser refe­ri­do a mui­tos aspec­tos soci­ais, afe­tan­do vári­os cam­pos, incluin­do o cres­ci­men­to popu­la­ci­o­nal, a trans­for­ma­ção agrí­co­la, o uso de ener­gia, a alo­ca­ção de recur­sos, a ges­tão da polui­ção, etc. Todos os fato­res de sus­ten­ta­bi­li­da­de são igual­men­te impor­tan­tes. O desen­vol­vi­men­to para uma cida­de sus­ten­tá­vel impli­ca esta­be­le­cer metas que aten­dam às neces­si­da­des dos valo­res ambi­en­tais, soci­ais e econô­mi­cos (MOSER, EKSTROM, 2010).

O pro­ces­so de desen­vol­vi­men­to e a res­pec­ti­va for­mu­la­ção de polí­ti­cas ao lon­go do cami­nho exi­gem mudan­ças cons­tan­tes, depen­den­do das dife­ren­tes situ­a­ções e pro­ble­mas sur­gi­dos. O pla­ne­ja­men­to moder­no de cida­des sus­ten­tá­veis com o obje­ti­vo de se adap­tar às mudan­ças cli­má­ti­cas devem ser dinâ­mi­cas, com metas e estra­té­gi­as ini­ci­ais cla­ra­men­te definidas.

O pla­ne­ja­men­to urba­no sus­ten­tá­vel e a cons­tru­ção devem ser faci­li­ta­dos com a con­si­de­ra­ção da quan­ti­da­de de par­ti­ci­pa­ção da comu­ni­da­de, a cons­ci­en­ti­za­ção do ambi­en­te natu­ral e, mais impor­tan­te, o enga­ja­men­to de fun­ci­o­ná­ri­os gover­na­men­tais e pla­ne­ja­do­res públicos.

O pla­ne­ja­men­to urba­no sus­ten­tá­vel deve con­si­de­rar a cida­de ou a região urba­na como um todo ou como um sis­te­ma onde vári­os fato­res inte­ra­gem. Esta seção pro­põe vári­os fato­res e méto­dos de imple­men­ta­ção efi­ca­zes para alcan­çar o pro­pó­si­to de cons­tru­ção sus­ten­tá­vel de cida­des e adap­ta­ção às mudan­ças climáticas.

2.1 MEDIDAS PARA DESENVOLVIMENTO URBANO INTELIGENTE E SUSTENTÁVEL

2.1.1 Mate­ri­ais reci­clá­veis e ener­gia renovável

Os resí­du­os já foram vis­tos como o far­do para as soci­e­da­des, espe­ci­al­men­te após a evo­lu­ção das cida­des urba­nas e a rápi­da urba­ni­za­ção. Em com­pa­ra­ção com a era iti­ne­ran­te, os resí­du­os se acu­mu­lam nas cida­des em vez de serem dei­xa­dos para trás.

Os pro­ble­mas sur­gem de resí­du­os indus­tri­ais e domés­ti­cos e, even­tu­al­men­te, levam a doen­ças devi­do à fal­ta de higi­e­ne, más con­di­ções de vida e até mes­mo epi­de­mi­as em gran­de esca­la. Os ater­ros sani­tá­ri­os foram ado­ta­dos e ain­da hoje são um méto­do comum para lidar com os deje­tos humanos.

No entan­to, evi­tar ater­ros sani­tá­ri­os e impor polí­ti­cas com foco na reci­cla­gem de mate­ri­ais e no uso de ener­gia lim­pa é um dos cri­té­ri­os mais impor­tan­tes para cons­truir cida­des sus­ten­tá­veis. A mai­o­ria dos resí­du­os, como os plás­ti­cos, leva déca­das para se decom­por na ter­ra e traz pro­du­tos quí­mi­cos tóxi­cos para a ter­ra que aca­bam indo parar no abas­te­ci­men­to urba­no de água.

Segun­do IPEA (2020), em 2018 foram gera­das 79 milhões de tone­la­das de Resí­du­os sóli­dos urba­nos pelas cida­des bra­si­lei­ras e 92% des­se total foi cole­ta­do, o que equi­va­le a cer­ca de 72 milhões de tone­la­das. Des­ses, somen­te 43,3 milhões de tone­la­das (59,5%) do cole­ta­do, foi dis­pos­to em ater­ros sanitários.

O volu­me de 29,5 milhões de tone­la­das de resí­du­os, que repre­sen­ta 40,5% do total cole­ta­do, foi depo­si­ta­do de for­ma ina­de­qua­da em lixões ou ater­ros con­tro­la­dos. É impor­tan­te notar que cer­ca de 6,3 milhões de tone­la­das gera­das ao ano con­ti­nu­am sem ao menos cole­ta, sen­do depo­si­ta­das sem con­tro­le, mes­mo quan­do a legis­la­ção deter­mi­na a des­ti­na­ção para tra­ta­men­to e, em últi­mo caso, para ater­ros sani­tá­ri­os (IPEA, 2020).

Duran­te o tem­po de decom­po­si­ção, pro­du­tos quí­mi­cos inde­se­já­veis cons­tan­te­men­te cor­ro­em o solo e pre­ju­di­cam a agri­cul­tu­ra; ocu­pam ter­ras e espa­ços que, de outra for­ma, pode­ri­am ser uti­li­za­dos para cri­ar valo­res soci­ais e eco­nó­mi­cos; a água poluí­da aca­ba per­me­an­do a pro­du­ção indus­tri­al, a irri­ga­ção agrí­co­la e a água potá­vel diária.

Esses resí­du­os devem ser reci­cla­dos em vez de enter­ra­dos gros­sei­ra­men­te no sub­so­lo para entrar em um novo ciclo de pro­du­ção de valor e, ao mes­mo tem­po, evi­tar danos a lon­go pra­zo. A ener­gia reno­vá­vel segue a mes­ma lógi­ca, já que a ener­gia tra­di­ci­o­nal, como os com­bus­tí­veis fós­seis, é des­car­tá­vel, o que sig­ni­fi­ca que o for­ne­ci­men­to cons­tan­te de petró­leo bru­to é neces­sá­rio para apoi­ar a fun­ci­o­na­li­da­de das cida­des, assim como os mate­ri­ais tra­di­ci­o­nais (por exem­plo, plás­ti­cos) que aca­ba­ram no sub­so­lo após serem usados.

A mudan­ça para ener­gia lim­pa reno­vá­vel, por exem­plo, solar, bio­mas­sa, hídri­ca, geo­tér­mi­ca e eóli­ca, não ape­nas reduz dras­ti­ca­men­te a emis­são de car­bo­no da quei­ma de com­bus­tí­veis fós­seis, mas tam­bém resol­ve o pro­ble­ma do arma­ze­na­men­to fini­to de petró­leo bru­to. Par­te decen­te da alo­ca­ção gover­na­men­tal de orça­men­to, capi­tal huma­no, recur­sos e polí­ti­cas deve ser trans­fe­ri­da para o desen­vol­vi­men­to de sis­te­mas de reci­cla­gem de mate­ri­ais e cons­tru­ção de ener­gia renovável.

Segun­do a nor­ma da ABNT NBR10004 (2004), Resí­du­os sóli­dos são as maté­ri­as que se encon­tram nos esta­dos sóli­dos e semis­só­li­dos, pro­du­tos estes resul­tan­tes de diver­sas ati­vi­da­des, sen­do de ori­gem hos­pi­ta­lar, comer­ci­al, domés­ti­ca, agrí­co­la, ser­vi­ço de var­ri­ção, entre outros, que quan­do dis­pen­sa­dos de for­ma erra­da podem cau­sar pre­juí­zos ao meio ambi­en­te. Entram nes­ta defi­ni­ção tam­bém os resí­du­os for­ma­dos a par­tir de tra­ta­men­tos de água ‚os famo­sos lodos, e alguns líqui­dos que quan­do lan­ça­dos em manan­ci­ais de água, não tem como mais rever­ter o pre­juí­zo, nem com as mais avan­ça­das tec­no­lo­gi­as existentes.

Por­tan­to no que diz res­pei­to a impac­tos oca­si­o­na­dos por resí­du­os sóli­dos, as ati­vi­da­des rea­li­za­das pelos seres huma­nos, tem sido a mai­or cau­sa des­ta pro­ble­má­ti­ca, de modo que, cabe ao ser huma­no bus­car mei­os para ten­tar mini­mi­zar a pro­gres­si­vi­da­de ins­tan­tâ­nea des­te pro­ble­ma mun­di­al­men­te conhe­ci­do. Os resí­du­os sóli­dos se classificam:

Quan­to à com­po­si­ção quí­mi­ca: sen­do eles orgâ­ni­cos, inor­gâ­ni­cos, polu­en­tes orgâ­ni­cos per­sis­ten­tes, polu­en­tes orgâ­ni­cos não persistentes;

Quan­to ao tipo: reci­clá­vel e não reci­clá­vel ou rejeito;

Quan­to à ori­gem: sen­do eles domi­ci­li­a­res, resí­duo de lim­pe­za urba­na, resí­du­os sóli­dos urba­nos, resí­du­os de esta­be­le­ci­men­tos comer­ci­ais e pres­ta­do­res de ser­vi­ços, resí­du­os dos ser­vi­ços públi­cos de sane­a­men­to bási­co, resí­du­os indus­tri­ais, resí­du­os de ser­vi­ços de saú­de, resí­du­os de cons­tru­ção Civil, resí­du­os agros­sil­vo­pas­to­ris, resí­du­os de ser­vi­ço de trans­por­tes, resí­du­os de mineração;

Quan­to à peri­cu­lo­si­da­de: resí­du­os peri­go­sos (clas­se I), são aque­les que devi­do sua carac­te­rís­ti­ca de infla­ma­bi­li­da­de, apre­sen­ta o gran­de ris­co a saú­de e ao meio ambi­en­te, não iner­tes (clas­se II), são os resí­du­os que não apre­sen­ta peri­go (DOS SANTOS GARCIA et al., 2015).

Para Nas­ci­men­to (2015), um pro­du­to só pode ser con­si­de­ra­do lixo, depois de esgo­tar todas as suas pos­si­bi­li­da­des de rea­pro­vei­ta­men­to. Os Resí­du­os Sóli­dos Urba­nos (RSU) popu­lar­men­te conhe­ci­dos como lixo, cons­ti­tu­em os mai­o­res cau­sa­do­res de impac­tos ambi­en­tais (SOUZA et al., 2018). Esta defi­ni­ção não é nova, pois os pro­ble­mas oca­si­o­na­dos pelo lixo estão sen­do mui­to dis­cu­ti­dos nos últi­mos anos (DOS SANTOS GARCIA et al., 2015).

Sabe-se que quan­do o lixo é dis­pos­to de for­ma ina­de­qua­da, pos­si­bi­li­ta uma série de impac­tos ao meio ambi­en­te e aos seres vivos, como a con­ta­mi­na­ção do solo, e das águas tan­to super­fi­ci­ais como sub­ter­râ­ne­as (TEIXEIRA e SILVA, 2012).

A recen­te pre­o­cu­pa­ção em rela­ção aos plás­ti­cos se deve à ausên­cia de degra­da­bi­li­da­de, fecha­men­to de ater­ros sani­tá­ri­os e incre­men­to de pro­ble­mas de polui­ção dos solos e das águas. Todos os dias, oito milhões de peda­ços de plás­ti­co entram nos oce­a­nos (DAMAYANTI, WU, 2021).

O pro­ces­so de ges­tão de resí­du­os sóli­dos se ini­cia com a cole­ta sele­ti­va, que asse­gu­ra que uma quan­ti­da­de mai­or de resí­du­os reci­clá­veis seja rea­pro­vei­ta­da, além de con­tri­buir para que os resí­du­os não reci­clá­veis sejam dis­pos­tos de for­ma ambi­en­tal­men­te ade­qua­da. A prá­ti­ca da cole­ta sele­ti­va reduz os impac­tos ao meio ambi­en­te e à saú­de públi­ca, fun­ci­o­nan­do como sub­pro­du­to para algu­mas ati­vi­da­des indus­tri­ais e como fon­te de ren­da para tra­ba­lha­do­res. De acor­do com a Reso­lu­ção do CONAMA (Con­se­lho Naci­o­nal do Meio Ambi­en­te) N.º 275/2001, foi defi­ni­do um códi­go de cores para dife­ren­ci­ar os tipos de resí­du­os na cole­ta seletiva.

Con­for­me dos San­tos Gar­cia et al. (2015), a cole­ta sele­ti­va repre­sen­ta a manei­ra eco­ló­gi­ca mais ade­qua­da para o des­car­te de lixo. Asso­ci­a­do ao tema de edu­ca­ção ambi­en­tal e do desen­vol­vi­men­to sus­ten­tá­vel, a cole­ta sele­ti­va evi­ta a polui­ção do solo e das águas. A inten­ção é sepa­rar todos os resí­du­os, uti­li­zan­do-os na reci­cla­gem. Todos os cida­dãos podem cola­bo­rar com a sepa­ra­ção dos mate­ri­ais seguin­do a teo­ria dos 5 R’s, mos­tra­da na figu­ra a seguir.

Figu­ra 1 – Teo­ria 5 R’s

Fon­te: Ela­bo­ra­ção pró­pria com base em dos San­tos Gar­cia et al (2015)

Os prin­ci­pais bene­fí­ci­os da cole­ta sele­ti­va são a pro­mo­ção da cons­ci­ên­cia ambi­en­tal dos cida­dãos, a redu­ção da con­ta­mi­na­ção do solo e da água e do des­per­dí­cio dos recur­sos natu­rais não-reno­vá­veis, a pro­mo­ção da reci­cla­gem (rea­pro­vei­ta­men­to de mate­ri­ais), a melho­ria da eco­no­mia (dimi­nui­ção de cus­tos de pro­du­ção, gera­ção de empre­gos, etc.), alí­vio e pro­lon­ga­men­to da vida útil dos ater­ros sanitários.

A reci­cla­gem do plás­ti­co pode ser fei­ta ado­tan­do umas das seguin­tes téc­ni­cas: reci­cla­gem mecâ­ni­ca, reci­cla­gem quí­mi­ca e bio reciclagem.

A reci­cla­gem mecâ­ni­ca é o méto­do mais comum para a reci­cla­gem de PET, que envol­ve a cole­ta e tri­tu­ra­ção de pro­du­tos PET usa­dos em peque­nos peda­ços, depois lavá-los e sepa­rá-los dos con­ta­mi­nan­tes e der­re­tê-los para cri­ar resi­na PET der­re­ti­da. Os flo­cos PET lim­pos são então fun­di­dos e mol­da­dos em novos pro­du­tos, como gar­ra­fas, fibras ou fil­mes. A reci­cla­gem mecâ­ni­ca é um méto­do econô­mi­co e ener­ge­ti­ca­men­te efi­ci­en­te que pode redu­zir as emis­sões de gases de efei­to estu­fa e con­ser­var os recur­sos natu­rais (JEHANNO et al., 2022).

Tam­bém pode redu­zir a quan­ti­da­de de pro­du­tos PET que ter­mi­nam em ater­ros sani­tá­ri­os ou oce­a­nos, e con­tri­buir para o desen­vol­vi­men­to da eco­no­mia cir­cu­lar. No entan­to, tem vári­as limi­ta­ções, como a qua­li­da­de e quan­ti­da­de de pro­du­tos PET cole­ta­dos e con­ta­mi­na­ção (MANCINI et al., 2010).

A reci­cla­gem quí­mi­ca é uma tec­no­lo­gia emer­gen­te que uti­li­za rea­ções para decom­por pro­du­tos PET em seus monô­me­ros, que podem ser uti­li­za­dos para pro­du­zir novos pro­du­tos PET (BOHRE et al., 2023).

A reci­cla­gem quí­mi­ca pode sobre­por as limi­ta­ções da reci­cla­gem mecâ­ni­ca atra­vés da con­ver­são de resí­du­os PET em maté­ri­as-pri­mas de alta qua­li­da­de, como o áci­do teref­tá­li­co puri­fi­ca­do (PTA) e mono­e­ti­le­no­gli­col (MEG). A reci­cla­gem quí­mi­ca tam­bém pode redu­zir as emis­sões de gases de efei­to estu­fa e o con­su­mo de ener­gia em até 50% em com­pa­ra­ção com a pro­du­ção de PET vir­gem (SEVIGNÉ-ITOIZ et al., 2015).

No entan­to, a reci­cla­gem quí­mi­ca requer equi­pa­men­tos e pro­fis­si­o­nais espe­ci­a­li­za­dos, e o pro­ces­so pode ser caro e com­ple­xo. A reci­cla­gem quí­mi­ca do PET envol­ve a que­bra das lon­gas cadei­as de molé­cu­las PET nos seus monó­me­ros indi­vi­du­ais, que pode então ser usa­do para fazer novos PET ou outros pro­du­tos. O pro­ces­so é divi­di­do em vári­as eta­pas, que inclu­em des­po­li­me­ri­za­ção, puri­fi­ca­ção, repo­li­me­ri­za­ção e con­for­ma­ção (KIM, LEE, PARK, 2022).

A bio reci­cla­gem, tam­bém conhe­ci­da como reci­cla­gem enzi­má­ti­ca, é um novo méto­do que usa enzi­mas para que­brar pro­du­tos PET em seus monô­me­ros (GARCÍA, 2022). A Bio reci­cla­gem pode supe­rar as limi­ta­ções da reci­cla­gem mecâ­ni­ca e quí­mi­ca atra­vés da pro­du­ção de maté­ri­as-pri­mas de alta qua­li­da­de que são idên­ti­cas ao PET vir­gem. A Bio reci­cla­gem tam­bém pode redu­zir a emis­são de gases de efei­to estu­fa e con­su­mo de ener­gia e aumen­tar a efi­ci­ên­cia da reci­cla­gem (KUMAR et al., 2023).

No entan­to, a bio reci­cla­gem ain­da está nos está­gi­os ini­ci­ais do desen­vol­vi­men­to e requer mais pes­qui­sa e oti­mi­za­ção para ser comer­ci­al­men­te viá­vel. O pro­ces­so de bio­re­ci­cla­gem do PET envol­ve o uso de enzi­mas, que são cata­li­sa­do­res bio­ló­gi­cos que podem que­brar o polí­me­ro para os seus monó­me­ros cons­ti­tuin­tes. Este pro­ces­so é divi­di­do em vári­as eta­pas: cole­ta e tri­a­gem de resí­du­os PET, tama­nho rein­du­ção, des­po­li­me­ri­za­ção enzi­má­ti­ca, puri­fi­ca­ção e poli­me­ri­za­ção (HIRAGA, et al., 2019).

O pro­ces­so de cole­ta e tri­a­gem envol­ve a tri­a­gem dos resí­du­os com base em sua cor, tipo e qua­li­da­de, enquan­to a redu­ção de tama­nho envol­ve tri­tu­rar os resí­du­os em peque­nos peda­ços para aumen­tar sua área de super­fí­cie e degra­da­ção enzi­má­ti­ca do cili­ta­to. A des­po­li­me­ri­za­ção pro­duz uma mis­tu­ra de monô­me­ros e oligô­me­ros, que pre­ci­sam ser sepa­ra­dos e purificados.

A poli­me­ri­za­ção pro­duz um novo PET, que pode ser usa­do para pro­du­zir vári­os pro­du­tos como gar­ra­fas, fil­mes e fibras. Bio reci­cla­gem de PET é uma abor­da­gem pro­mis­so­ra para redu­zir o impac­to ambi­en­tal dos resí­du­os do plás­ti­co, pois não neces­si­tam de com­bus­tí­veis fós­seis e podem reci­clar até mes­mo resí­du­os PET de qua­li­da­de. Tam­bém pro­duz monô­me­ros de alta qua­li­da­de que podem ser usa­dos para pro­du­zir PET novo com pro­pri­e­da­des seme­lhan­tes ao PET virgem.

2.1.2 Trans­por­te sustentável

O trans­por­te, como outro impor­tan­te indi­ca­dor que suge­re fun­ci­o­na­li­da­de e sus­ten­ta­bi­li­da­de de uma área urba­na e dos mora­do­res da cida­de, deve ser con­ce­bi­do como diver­so, orga­ni­za­do e eco­lo­gi­ca­men­te cor­re­to, com foco no desen­vol­vi­men­to do trans­por­te público.

Para alcan­çar a sus­ten­ta­bi­li­da­de, é neces­sá­rio que uma cida­de seja capaz de for­ne­cer aos seus cida­dãos vári­os padrões de trá­fe­go: cami­nha­das, pas­sei­os de bici­cle­ta, car­ros e trans­por­tes públi­cos. Trans­por­tes diver­si­fi­ca­dos garan­tem uma soci­e­da­de capaz de expan­dir suas fun­ções, explo­rar seus poten­ci­ais e faci­li­tar que seus cida­dãos alcan­cem obje­ti­vos econô­mi­cos e finan­cei­ros de cur­to e lon­go prazo.

Além dis­so, os trans­por­tes ide­ais per­mi­tem que os cida­dãos vivam uma vida de for­ma con­ve­ni­en­te para garan­tir ain­da mais as inte­ra­ções soci­ais dese­já­veis. Trans­por­tes diver­sos não ape­nas com­bi­nam valo­res econô­mi­cos e soci­ais, mas, mais impor­tan­te, garan­tem a fle­xi­bi­li­da­de para fazer escolhas.

Em uma cida­de com trans­por­tes dese­qui­li­bra­dos, com trans­por­tes públi­cos pou­co desen­vol­vi­dos, os cida­dãos são for­ça­dos a esco­lher o des­lo­ca­men­to para o local de tra­ba­lho de car­ro. Uma mai­or emis­são de gases de efei­to estu­fa, como o dió­xi­do de car­bo­no, seria ine­vi­tá­vel, em com­pa­ra­ção com cida­des com sis­te­ma de trans­por­te públi­co madu­ro e sabi­a­men­te organizado.

2.1.3 Alo­ca­ção de recur­sos e espaço

É pre­ci­so dis­tri­buir sabi­a­men­te e de acor­do com cada uma das fun­ções urba­nas, em vári­as par­tes da cida­de. O espa­ço deve incluir todas as fun­ções neces­sá­ri­as para viver, como mora­dia, edu­ca­ção, assis­tên­cia médi­ca, obras, recre­a­ção e etc. A alo­ca­ção sábia de recur­sos tam­bém é garan­tir que todos os obje­ti­vos, fato­res e polí­ti­cas fei­tas para a cons­tru­ção de áre­as urba­nas sus­ten­tá­veis sejam capa­zes de alcan­çar de for­ma efi­ci­en­te e sem atrasos.

2.1.4 Estra­té­gi­as de pro­te­ção con­tra desastres

As estra­té­gi­as de pre­ven­ção e a pre­pa­ra­ção para situ­a­ções de emer­gên­cia não estão madu­ras na mai­o­ria dos paí­ses e das auto­ri­da­des quan­do enfren­tam as con­sequên­ci­as das alte­ra­ções cli­má­ti­cas, por exem­plo, catás­tro­fes natu­rais como tufões e chu­vas intensas.

Se faz neces­sá­ria a dis­cus­são de tais estra­té­gi­as e polí­ti­cas que são capa­zes de pre­ve­nir a ocor­rên­cia de desas­tres e tam­bém garan­tir a segu­ran­ça das cida­des e dos cida­dãos den­tro da che­ga­da de uma catás­tro­fe imparável.

Cli­mas anor­mais e desas­tres natu­rais tor­na­ram-se mais fre­quen­tes e gra­ves em todo o mun­do nos últi­mos anos. Chu­vas for­tes e inun­da­ções, nevo­ei­ro e nebli­na, incên­di­os flo­res­tais e polui­ção do ar afe­tam os sis­te­mas urba­nos e ame­a­çam a vida das pes­so­as de for­ma séria e dife­ren­te (CEPED, UFSC, 2016).

Exis­tem vári­os prin­cí­pi­os impor­tan­tes sobre estra­té­gi­as de pre­ven­ção de desas­tres. Tais estra­té­gi­as pre­ci­sam ser rápi­das e simul­tâ­ne­as na res­pos­ta ao desas­tre, e devem mos­trar sua capa­ci­da­de de ser usa­das facil­men­te por mui­tas pes­so­as em um tem­po rela­ti­va­men­te cur­to, inde­pen­den­te­men­te da capa­ci­da­de de lin­gua­gem e das con­di­ções físi­cas dos usuá­ri­os. Com a che­ga­da de desas­tres natu­rais, deve-se reve­lar uma esta­bi­li­da­de com­ple­ta em ter­mos de mate­ri­al e estru­tu­ras, para que se pos­sa garan­tir que danos secun­dá­ri­os sejam evi­ta­dos após a imple­men­ta­ção das estratégias.

Final­men­te, as estra­té­gi­as e polí­ti­cas de pre­ven­ção de desas­tres devem ser facil­men­te uti­li­za­das por um lon­go tem­po e ter sua con­ti­nui­da­de, caso con­trá­rio, devem ser atu­a­li­za­das regu­lar­men­te pelas auto­ri­da­des e, ao mes­mo tem­po, edu­car as estra­té­gi­as atu­a­li­za­das para todos os cida­dãos e mora­do­res da cida­de (FREITAS et al., 2014).

As estra­té­gi­as podem ser cate­go­ri­za­das em pre­ven­ção, pre­pa­ra­ção, res­pos­ta e recu­pe­ra­ção. As estra­té­gi­as de pre­ven­ção são uti­li­za­das para supri­mir a ocor­rên­cia de catás­tro­fes por meio da eli­mi­na­ção ou redu­ção das cau­sas do desas­tre e con­tem­plam avi­so de área de desas­tre, mapa de desas­tres, ins­ta­la­ções de segu­ran­ça, equi­pa­men­to de inves­ti­ga­ção de grau de segurança.

A pre­pa­ra­ção refe­re-se ao pla­ne­ja­men­to, pre­pa­ra­ção e sua edu­ca­ção e publi­ci­da­de antes que o desas­tre real ocor­ra para que a capa­ci­da­de de com­ba­te aos desas­tres seja apri­mo­ra­da. Exer­cí­ci­os, simu­la­ções e modi­fi­ca­ções devem ser imple­men­ta­dos nes­ta cate­go­ria, que pre­vê ins­ta­la­ções de eva­cu­a­ção, cam­po de refu­gi­a­dos, simu­la­ções de desas­tres, sis­te­ma de alar­me de emer­gên­cia, sis­te­ma de inves­ti­ga­ção de danos.

A res­pos­ta é um tipo de pro­je­to que aju­da a redu­zir os impac­tos e danos de pos­sí­veis desas­tres secun­dá­ri­os após a ocor­rên­cia de catás­tro­fes natu­rais, pre­ven­do, pre­ven­do e alo­can­do sabi­a­men­te os recur­sos e os capi­tais huma­nos exis­ten­tes, uti­li­zan­do ins­ta­la­ções de guia de emer­gên­cia, equi­pa­men­to de comu­ni­ca­ção de emer­gên­cia, abri­go de eva­cu­a­ção urgen­te, supri­men­tos médi­cos de emer­gên­cia, fon­tes de ener­gia de emergência.

A recu­pe­ra­ção refe­re-se a ati­vi­da­des que recu­pe­ram comu­ni­da­des, inte­ra­ções soci­ais, higi­e­ne e todas as situ­a­ções rele­van­tes como antes do desas­tre e con­tem­pla abri­gos, insu­mos para pre­ven­ção de epi­de­mi­as, pro­gra­ma de cura físi­ca e psi­co­ló­gi­ca, con­tro­le da polui­ção (SORIANO, 2009).

3 CONCLUSÃO

O desen­vol­vi­men­to da soci­e­da­de huma­na des­de o iní­cio da Revo­lu­ção Indus­tri­al liber­tou gran­de quan­ti­da­de de popu­la­ção da arma­di­lha da pobre­za e da fome. Sua con­tri­bui­ção para o cres­ci­men­to econô­mi­co e a pros­pe­ri­da­de da soci­e­da­de nun­ca deve ser pos­ta em dúvi­da, enquan­to as con­sequên­ci­as não inten­ci­o­nais e os pro­ble­mas que sur­gem da urba­ni­za­ção, bem como ao lon­go do cami­nho da indus­tri­a­li­za­ção, tam­bém se colo­cam como os obs­tá­cu­los na evo­lu­ção urba­na de lon­go prazo.

Para evi­tar o esgo­ta­men­to das poten­ci­a­li­da­des, é neces­sá­rio um pla­ne­ja­men­to urba­no e cons­tru­ti­vo sus­ten­tá­vel para se adap­tar às mudan­ças cli­má­ti­cas, efei­to desas­tro­so da urba­ni­za­ção e da indus­tri­a­li­za­ção. Enquan­to isso, tam­bém é neces­sá­rio pre­pa­rar estra­té­gi­as de pre­ven­ção de desas­tres para que haja méto­dos dis­po­ní­veis na che­ga­da de desas­tres natu­rais e a pre­ven­ção de per­das pos­sa ser alcançada.

A recu­pe­ra­ção e reci­cla­gem de resí­du­os sóli­dos urba­nos ain­da é um desa­fio para os muni­cí­pi­os bra­si­lei­ros e outras cida­des de paí­ses em desen­vol­vi­men­to. Em 2021, ape­nas 32% dos muni­cí­pi­os bra­si­lei­ros pos­suíam sis­te­ma de cole­ta sele­ti­va de reci­clá­veis, com recu­pe­ra­ção de 1,7% do total de resí­du­os sóli­dos urba­nos cole­ta­dos naque­le ano (SNIS, 2022).

A Polí­ti­ca Naci­o­nal de Resí­du­os Sóli­dos (Lei nº 12.305/2010) esta­be­le­ce que a ordem de pri­o­ri­da­de na ges­tão de resí­du­os é a não gera­ção, redu­ção, reu­ti­li­za­ção, reci­cla­gem, tra­ta­men­to e dis­po­si­ção final ambi­en­tal­men­te ade­qua­da. No entan­to, a mai­or par­te dos resí­du­os reco­lhi­dos é dire­ci­o­na­da para ater­ros e lixões, resul­tan­do em diver­sos impac­tos ambi­en­tais e sociais.

O Pla­no Naci­o­nal de Resí­du­os Sóli­dos (MMA, 2022) esta­be­le­ce como meta a redu­ção dos resí­du­os envi­a­dos para ater­ros sani­tá­ri­os e a eli­mi­na­ção de lixões, visan­do recu­pe­rar 48% dos resí­du­os sóli­dos urba­nos gera­dos no Bra­sil até 2040. O aumen­to da reci­cla­gem de resí­du­os é essen­ci­al para redu­zir os impac­tos ambi­en­tais cau­sa­dos pela dis­po­si­ção ina­de­qua­da e aumen­tar a vida útil dos ater­ros sanitários.

Para atin­gir esse obje­ti­vo, os muni­cí­pi­os deve­rão estru­tu­rar e imple­men­tar sis­te­mas de cole­ta sele­ti­va e desen­vol­ver pro­gra­mas de edu­ca­ção ambi­en­tal para apoi­ar e garan­tir a con­ti­nui­da­de des­ses sis­te­mas. Os muni­cí­pi­os bra­si­lei­ros apre­sen­tam dife­ren­ças sig­ni­fi­ca­ti­vas na capa­ci­da­de téc­ni­ca, econô­mi­ca e de ges­tão para imple­men­tar a cole­ta sele­ti­va. Das 5.568 cida­des do Bra­sil, 67,4% têm até 20 mil habi­tan­tes e 43,1% têm 10 mil habi­tan­tes ou menos. Esses peque­nos muni­cí­pi­os apre­sen­tam, mui­tas vezes, menos recur­sos e estru­tu­ras de ges­tão mais frá­geis, exi­gin­do, por­tan­to, estra­té­gi­as de geren­ci­a­men­to de resí­du­os dife­ren­tes das imple­men­ta­das em muni­cí­pi­os mai­o­res (IBGE, online).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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